quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Síria: Ganhos do Exército em Idlib - Insurgentes Desafiam Ocupação Estrangeira

10/1/2018, Moon of Alabama


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

"Politicamente e militarmente, os EUA continuam a ser a principal ameaça à paz na Síria."



Embora os EUA finjam que desistiram do golpe para 'mudar o regime' na Síria, verdade é que continuam a tentar sabotar os avanços do governo sírio e aliados.

O recente ataque com drones contra a base russa Khmeimim em Latakia é um dos exemplos. 13 sofisticados drones armados, com alcance de cerca de 100 quilômetros, atacaram a base, ao mesmo tempo em que um avião norte-americano equipado para guerra eletrônica circulava sobre a costa da Síria. O ataque deu em nada. A Rússia também tem sofisticados recursos de guerra eletrônica e logo assumiu o controle sobre seis dos drones. E os demais sete foram derrubados pelas defesas antiaéreas russas.

Pretender, como os EUA estão fazendo, que os drones teriam sido controlados e/ou derrubados pelo ISIS ou por "rebeldes" é perfeita sandice. O máximo que o ISIS consegue é fazer voar drones armados controlados por controle remoto e que só voam enquanto estão à vista do 'controlador'. O ataque dos EUA foi feito por drones autônomos, armados com GPS e sensores barométricos para encontrar os alvos. É totalmente outro nível, totalmente fora das capacidades do ISIS. Duvido que os russos deixem sem resposta essa agressão flagrante. Preparem-se para algum "acidente" que pode em breve acontecer a soldados ou a interesses dos EUA no exterior.

Nas últimas três semanas aconteceram três grandes operações militares.


MapaControle militar na Síria (Maior)

No sudoeste sírio, tropas do governo sírio, em cooperação com drusos locais, assumiram afinal controle completo sobre toda a área de Beit Jinn próxima à fronteira com o Líbano e às colinas do Golan sírio ocupado por Israel.


Mapa: Golan sírio ocupado (Maior)

Elementos da Al Qaeda dentro do bolsão renderam-se depois que tropas sírias capturaram os topos de montanhas próximas e ganharam assim controle de fogo sobre toda a área. Os que se renderam foram levados para fora de Idlib. A parte azul no norte do mapa acima está agora sob controle militar do governo sírio.


O bolsão de Ghouta, imediatamente a leste de Damasco, onde se abrigavam vários grupos de jihadistas, já há muito tempo é problema grave. Granadas disparadas dessa área podem facilmente alcançar o centro de Damasco. Nas últimas oito semanas, mais de 350 civis em Damasco foram mortos ou feridos em ataques desse tipo.

Ghouta é área controlada por elementos da al-Qaeda, do grupo Ahrar al-Sham e do grupo Jaish al-Islam controlado pelos sauditas. Na parte ocidental da área, forças do governo sírio mantém há muito tempo uma grande base militar. Há duas semanas, elementos do grupo Ahrar al-Sham violaram um tratado vigente para desescalada e atacaram, com um grande grupo, aquela base. Os soldados em treinamento que faziam a guarda da base tiveram dificuldades contra o ataque e estavam perdendo terreno. Foram cercados e chegaram a ficar isolados. Depois de alguns dias, reforços enviados pelo governo sírio levantaram o sítio e alargaram o corredor de acesso à base.


Mapa: Ghouta (Maior)

É mais que hora de pôr fim ao bolsão em Ghouta. Mas a área inclui quarteirões densamente povoados e avançar sobre o bolsão exige força maior e custará muito sangue. O governo sírio e seus apoiadores russos parecem crer que os sauditas podem ser convencidos a desistir dos seus "rebeldes" de Ghouta. Talvez seja possível recuperar o controle da área sem luta aberta.


A terceira, maior e mais importante operação da última semana é um combate em Hama-norte e no leste do governorado de Idlib.

Quando em 2015 Idlib foi ocupada por 'rebeldes' apoiados por EUA e Turquia, a cidade de Aleppo controlada pelo governo perdeu a conexão por estrada com o núcleo sul do país. O governo sírio construiu outra estrada pelo deserto, mais para leste, para manter o abastecimento da cidade. Mas essa estrada é insuficiente para a quantidade de tráfego necessário para revitalizar a cidade – hoje já libertada – de Aleppo.

É necessária uma conexão por estrada direta, de Damasco, Homs e Hama até Aleppo, que passe pelo território ainda controlado pela al-Qaeda no leste de Idlib. Depois de semanas de preparação com bombardeio aéreo, forças sírias de elite atacaram a partir do norte de Hama em direção a Aleppo. Romperam a linha de defesa da al-Qaeda e já libertaram perto de 100 vilas e cidades. Num movimento que ainda não havia sido visto, habitantes locais expulsaram os "rebeldes" da al-Qaeda antes mesmo da chegada dos soldados do Exército Árabe Sírio. Essas tropas estão agora junto aos muros da grande base aérea de Abu-al-Duhur, que é o ponto mais estratégico nessa ampla área.



                                Mapa: Ofensiva Abu al-Duhur, 7/1/2018 (Maior)


As forças da al-Qaeda a leste da cunha que forças do governo sírio meteram no governorado de Idlib estão agora sob risco iminente de serem cercadas. Já começaram a fugir para áreas a oeste do governorado que permanecem abertas rumo às fronteiras da Turquia.

Tão logo a nova estrada até Aleppo esteja segura, tropas do governo consolidarão o bolsão localizado a leste da estrada. Outras operações passarão então a depender do resultado das várias iniciativas diplomáticas que estão sendo trabalhadas hoje.

As forças apoiadas pelos EUA no nordeste da Síria mais uma vez encontram muitas dificuldades para assumir o controle sobre uma últimas vilas ainda controladas pelo ISIS no norte do rio Eufrates. Forças especiais dos EUA converteram a seu favor algumas tribos locais que, antes, combateram ao lado do ISIS. Atualmente estão retreinando essas forças. Mas tribos locais não têm nem espírito nem motivação para combater contra seus ex-aliados.

A Rússia está organizando para o final de janeiro uma grande conferência com centenas de figuras da oposição e do governo sírios, para que discutas mudanças na Constituição e eleições na Síria. Ainda não se sabe com certeza quem participará. Um dos problemas são as organizações curdas, que a Turquia – um dos países que está patrocinando o processo de desescalada – não deseja ver reconhecidas como entidades políticas. A Turquia de Erdogan continua hostil ao governo e ao povo sírios. Continua o fluxo de armas através da fronteira turca para os jihadistas em Idlib, e combatentes doISIS que fogem do país rumo à Europa continuam a poder passar por ali. A Turquia está cercando o enclave curdo de Afrin no noroeste da Síria, mas a atual correlação de forças não permite atacar.

No quadro mais amplo (leitura recomendada), a ocupação turca anti-curdos no noroeste da Síria e a ocupação norte-americana pró-curdos no nordeste, cancelam-se mutuamente uma, a outra. Nenhuma dessas forças pode avançar sem criar novos riscos para os próprios interesses comuns na OTAN. 

Politicamente e militarmente, os EUA continuam a ser a principal ameaça à paz na Síria.

Os EUA insistem numa continuação do natimorto processo de Genebra que foi concebido pela ONU para obter solução política na Síria. Continuam a querer o fim do governo do presidente Assad. Gente dentro do governo Trump ainda espera ganhar na mesa de conferência o que os EUA não conseguiram em sete anos de cooperação criminosa com grupos que lutam contra o povo sírio. Nada sugere que os EUA consigam agora o que não conseguiram antes.

Síria já mostrou que tem o desejo e a capacidade para resistir contra os golpes para 'mudança de regime' comandados pelos EUA. Os militares e aliados continuarão a consolidar as posições atuais. Mas libertar todas as áreas do norte, hoje sob ocupação de Turquia e EUA, é tarefa grande demais para exército ainda pequeno. Pode ser obtido mais facilmente mediante insurgências locais. 

A Síria conta também com milícias que acumularam extraordinária experiência em combate, que se somam aos militares regulares. Essas milícias foram treinadas pelo Hizbullah e combateram ao lado daqueles também experientes combatentes libaneses. Podem ser infiltrados nas zonas ocupadas e tornar a situação praticamente insustentável para os ocupantes. Os interesses sírios nessas áreas superam em muito os interesses dos países ocupantes. Talvez demore, mas não há dúvidas de que – no fim das contas – o povo da Síria sairá vencedor desse combate e libertará o próprio país.*****

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